quarta-feira, 2 de abril de 2014

O Carteiro

Todos dias bem cedo Valdir, o carteiro, entregava suas cartas no mesmo bairro aonde morava. Era um bairro pequeno, arborizado, com muitas flores e pássaros, aonde as pessoas se conheciam e paravam no parque para conversar.
Valdir sempre usava sua bicicleta para fazer suas entregas, pois faria com mais rapidez e ainda restaria tempo de sentar-se no parque para ler um livro, antes de retornar aos correios para entregar seu material.
Um dia de primavera, bem cedo, Valdir ao passar pela Rua das Flores, próximo ao número 44, transversal à rua principal que dava para o parque, avistou uma bela moça de cabelos cacheados, quase alvos, com os olhos amendoados, cheios de vida, observando os pássaros cantando e voando de galho em galho. Por um momento o tempo parou para aquele jovem carteiro que se viu encantado pela jovem na janela. De tão encantado que ficou, ele já não sentia mais o vento deslizando pelo seu rosto, balançando os finos fios do seus cabelos cor de mel, seu coração acelerou, e fixou seus olhos naquela janela até não avista-la mais, então passou por aquela casa aonde ele havia visto a mais rara beleza, que para ele era como óleo em tela aquela que estava na janela.
E todos os dias pela Rua das Flores ele passava, esperando que ali ela estivesse e que um dia o pudesse ver.
Um dia Valdir tirou da bolsa uma carta com o número daquela casa, foi o dia que ele mais esperava, pois quem sabe ela o notasse e também por ele se apaixonasse.
Foi então nesse dia que ele arriscaria toda sua sorte e, foi como se o destino o fizesse de novo menino cheio de felicidade só pelo simples fato de colocar aquela carta. E foi nesse momento que aquela jovem que estava na janela por todos aqueles dias que ele passava, o notou, olhou para ele com um sorriso singelo e o agradeceu apenas com um leve movimento com sua cabeça.
O Carteiro ficou como se o cupido o tivesse flechado. Após este dia ela sempre quando o via acenava e sorria. Mas o Carteiro não se conformava, e sempre se perguntava, o por quê que ela nunca se levantava e o esperava do lado de fora para uma troca de palavras.
Ele já estava triste com a esperança a fugir, se achando apenas um carteiro que nunca poderia um dia naquele coração fazer sua moradia.
Foi então que uma grande encomenda chegou de longe, uma caixa pesada, cheia de selos e grifada, era para aquele endereço, havia um nome feminino no destinatário, seria ela, Miriam? Então ele deixou aquela entrega para ser a ultima, pois em sua bicicleta não teria como carregar. No final da tarde Valdir, o carteiro, foi até os correios e na carona do carro de entregas grandes, seguiu a caminho da Rua das Flores, seria sua ultima tentativa de ouvir aquela moça tão linda por quem ele se apaixonou. O motorista para o carro de entregas em frente à casa, o carteiro desce rápido e junto com o motorista pega aquela caixa e ao entrar por aquele portão que o separava de sua amada, a viu novamente sentada naquela janela encantada, logo a porta se abre e um homem aponta lá de dentro todo sorridente, o carteiro vai perdendo suas forças, seu olhar perdendo o brilho e seu sorriso ficando amarelado, todo desanimo caiu sobre ele naquele momento de frustração, pois havia a possibilidade dela ser comprometida. O carteiro com a voz trêmula por engolir o choro, diz: - Boa tarde. Somos do correio e temos uma entrega para a senhora Miriam. Onde podemos colocar?
O homem então responde: - Olá, Miriam é minha filha, coloque a caixa ali no canto esquerdo da sala, pois vou buscá-la para ela ver o que chegou.
Então o carteiro suspira aliviado daquele homem ser apenas seu pai.
Ainda se recuperando do susto, ele avista a silhueta daquele homem vindo contra a luz, luz que entrava por aquela janela e que o atrapalhava de ver direito, então ele sobrepõe sua mão sobre seus olhos para diminuir a claridade e avista o pai daquela jovem a trazendo em seus braços. Logo o carteiro novamente por um segundo congelou suas reações, tentando entender ou explicar a si mesmo todos os pensamentos que teve durante todos aqueles dias em que imaginava o porquê que ela nunca se levantava e o esperava do lado de fora de sua casa. Neste momento o  silêncio foi quebrado com a voz daquela jovem dizendo:
- Olá seu carteiro, sabia que um dia deixaria de apenas acenar. Esperava que um dia alguma encomenda grande chegasse para que você aqui entrasse e então eu pudesse saber o seu nome.
O carteiro então sorrir ainda trêmulo e quase ainda sem voz diz: -Valdir, meu nome é Valdir.
O pai então rasga os lacres da caixa, corta o papelão com a ajuda de Valdir e tira lá de dentro, em meio as bolinhas de isopor, uma cadeira, não de balanço, mas aquela que a faria sair todos os dias de casa para passear no jardim, não esperando mais o carteiro entregar suas carta, mas esperando aquele que se tornou seu grande amor.

Re Aquino

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